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| Ilustração de LeBlanc[1]. |
Certa vez, uma raposa caiu numa armadilha e perdeu a cauda. Envergonhada com sua aparência, reuniu as outras raposas e tentou convencê-las de que viver sem cauda era melhor, alegando diversas vantagens. Porém, uma raposa mais prudente respondeu que, se isso fosse realmente tão vantajoso, ela não estaria tentando persuadir as demais, mas apenas desfrutaria sozinha do benefício. Assim, todas perceberam que a raposa queria apenas esconder seu próprio defeito.
Depois de ouvir a história, devemos refletir sobre as intenções da raposa. Por que ela queria que as outras também perdessem a cauda? Estava realmente preocupada com o bem das companheiras ou apenas tentando esconder a própria vergonha? E aquilo que dizia sobre as vantagens de não ter cauda era uma verdade objetiva ou apenas um argumento conveniente para justificar sua situação? Essas questões nos ajudam a compreender melhor a moral da fábula.
Ao lermos Mário Ferreira dos Santos (1966, p. 56)[2], deparamo-nos com a seguinte descrição da decadência cultural: “é a decadência que vemos instalar-se em toda a parte”. Ela se manifesta quando “escritores medíocres competem em glória com sumidades”; quando “poetas sem poesia gritam contra a morte da poesia”; quando “pensadores sem pensamento afirmam a inanidade do pensar”; quando “artistas sem imaginação chamam pela beleza exclusiva da cópia”; e, por fim, quando “pintores, que não sabem pintar, usam de uma liberdade de expressão que não expressa coisa nenhuma”.
Em seguida, o filósofo amplia esse diagnóstico ao afirmar que “nunca na história humana se justificou tanto a fábula da raposa sem cauda do que nesta que atravessamos”. Segundo ele, o homem passa a negar aquilo de que carece: “o mau orador nega o valor da oratória”; “o incapaz de escrever coisas profundas nega o valor da profundidade”; e “o borra-quadro nega o valor da pintura do passado”. Como consequência, observa-se uma época em que “improvisam-se genialidades com a rapidez das notícias e das modas” (SANTOS, 1966, p. 56).
Segundo Santo Tomás de Aquino, o intelecto existe para conhecer a verdade, enquanto a vontade deve desejar o bem verdadeiro. Quando a vontade domina indevidamente o intelecto, o homem passa a justificar seus defeitos em vez de corrigi-los.
O fato objetivo é que a raposa perdeu a cauda, mas o problema foi que sentiu vergonha disso. Dessa situação resultam duas possibilidades: a primeira é reconhecer a perda como um mal e aceitá-la; a segunda é convencer-se de que a perda foi um bem. Ela escolheu a segunda. Temos, então, o sofisma (raciocínio falacioso) da raposa, que pode ser expresso assim:
Eu perdi a cauda.
Não quero sentir vergonha.
Logo, perder a cauda é uma vantagem.
Mas a conclusão não decorre das premissas. O desejo substitui a verdade.
A aplicação moral é que, muitas vezes, os homens imitam a raposa. Alguém abandona os estudos e afirma que estudar é inútil. Outro perde o gosto pela virtude e passa a ridicularizar os virtuosos. Outro, ainda, abandona uma disciplina e tenta convencer todos de que ela não tinha valor. Em vez de elevar-se ao bem, procura rebaixar o bem ao seu próprio nível.
Ora, Santo Tomás ensina que a virtude exige conformar-se à realidade, não deformar a realidade para justificar nossos defeitos.
Um aluno afirma que os livros são inúteis porque não gosta de ler. Nesse raciocínio, o defeito não está nos livros, mas no próprio aluno. O fato de alguém não apreciar a leitura não diminui o valor dos livros nem elimina os benefícios que eles proporcionam. O erro consiste em tomar uma limitação ou preferência pessoal como critério para julgar a realidade.
O homem que está mais próximo da verdade é aquele que possui um defeito e o reconhece. Quem reconhece suas falhas pode corrigi-las e aperfeiçoar-se. Já aquele que transforma seu defeito em uma virtude imaginária afasta-se da verdade, pois procura justificar o erro em vez de combatê-lo. O reconhecimento sincero das próprias limitações é o primeiro passo para o crescimento moral e intelectual.
A raposa sem cauda está para a vergonha como o mentiroso está para a mentira. Assim como a raposa tenta convencer as outras de que não ter cauda é vantajoso para esconder sua vergonha, o mentiroso muitas vezes procura justificar a mentira ou apresentá-la como algo aceitável para não admitir sua falta. Em ambos os casos, busca-se disfarçar um defeito em vez de corrigi-lo.
Concluímos, portanto, que a moral da fábula é que não devemos adaptar a verdade aos nossos defeitos, mas adaptar nossa vida à verdade. O homem virtuoso corrige os próprios defeitos; o homem vicioso procura justificá-los e convencer os outros a imitá-lo.
NOTAS
[1]. LEBLANC, André. Ilustrações para Fábulas. In: Monteiro Lobato. Fábulas. São Paulo: Brasiliense, [196-].
[2]. SANTOS, Mário Ferreira dos. “Quando a arte luta contra a decadência”. In: ibid. Páginas Várias. São Paulo: Livraria e Editora LOGOS Ltda., 1966. p. 54-60.

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