A Invasão Vertical dos Bárbaros, de Mário Ferreira dos Santos


FICHA TÉCNICA 

2012 / 167 p. / São Paulo 

Autor: Mário Ferreira dos Santos

Editora: É Realizações

Catalogação: 1. Civilização 2. Cultura 3. Ética 4. Filosofia


Se observarmos alguns fenômenos do mundo atual — como o desprezo pela verdade e pela lógica, a exaltação do vulgar e do medíocre, o relativismo moral (“tudo é válido”) e a perda do senso de hierarquia (autoridade, mérito, tradição) —, inevitavelmente tendemos a nos perguntar se isso é progresso ou decadência.


O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, em A Invasão Vertical dos Bárbaros, propõe uma tese provocativa ao afirmar que a barbárie não invade mais “de fora para dentro”, como nas invasões antigas, mas “de baixo para cima”. Isso revela o problema de como uma civilização pode ser destruída por dentro.


Ora, na invasão horizontal que aconteceu no período clássico e que resultou na queda de impérios, eram os povos externos que dominavam uma civilização. Na invasão vertical moderna a degradação (queda) vem das camadas inferiores da cultura. Ou seja, o inferior passa a dominar o superior. 


A ‘invasão vertical dos bárbaros’ consiste na substituição dos valores superiores — verdade, beleza e bem — por valores inferiores — utilidade imediata, prazer e poder.


Como distingue o autor, “a invasão que é penetração gradual e ampla dos bárbaros não só se processa horizontalmente pela penetração no território civilizado, mas também verticalmente, que é a que penetra pela cultura, solapando os seus fundamentos, e preparando o caminho à corrupção mais fácil do ciclo cultural, como aconteceu no fim do Império Romano, e como começa a acontecer agora entre nós” (SANTOS, 2012, p. 14, grifo do autor).


Publicada originalmente em 1959, a obra Invasão Vertical dos Bárbaros, de Mário Ferreira dos Santos, já diagnosticava a decadência cultural que a sociedade brasileira viria a sofrer. Tal diagnóstico pode ser compreendido como um processo de desordem do intelecto e da vontade: quando o homem se afasta da verdade — que é o bem próprio do intelecto — e do bem objetivo — fim próprio da vontade —, instala-se uma corrupção dos princípios que sustentam a vida cultural.


Assim, a decadência não consiste apenas em mudanças externas ou históricas, mas sobretudo na perda da ordenação ao fim último, pois toda realidade se aperfeiçoa na medida em que se ordena ao seu fim; ao contrário, afasta-se da perfeição — e, portanto, decai — quando se desvia dele. 


Segundo o tomismo — na ordem do ser (ordo entis) –, o superior deve governar o inferior,  a razão deve governar os apetites, a verdade deve orientar a ação. Quando isso se inverte, há corrupção. Explicando de modo prático, na invasão vertical o irracional domina o racional, o útil domina o verdadeiro e o prazer domina o bem. Isso é uma desordem da natureza humana.


Vejamos, a seguir, alguns exemplos concretos apresentados pelo próprio autor ao longo de sua valiosa denúncia.


Na educação de outrora, valorizava-se a formação do intelecto e da virtude, mas na atual, valoriza-se o utilitarismo e o tecnicismo. Mário pontua certeiramente que “O perigo da pedagogia moderna, em seus aspectos negativos, consiste em julgar que basta apenas informar bem o educando para atingir ao conhecimento, quando a verdadeira pedagogia consistiria em dar a este a capacidade de, por si mesmo, investigar as causas, as razões, os porquês das coisas. Eis aqui um tema de máxima importância, e que merece de nós uma atenção mais cuidada: o problema pedagógico sob o aspecto da formação mental do homem”. E o nosso filósofo finaliza questionando: “Não deve ser a finalidade da pedagogia construir mentes capazes de investigar os porquês, as causas e as razões das coisas, ou apenas formar mentes medíocres, eruditas de certo modo, mas sem saberem por si mesmas alcançar as causas das coisas?” (SANTOS, 2012, p. 20).


O bárbaro, no sentido filosófico proposto pelo filósofo brasileiro, não é apenas o estrangeiro, mas aquele que rejeita a ordem da verdade, da hierarquia e da cultura superior. Ou seja: “A diferença fundamental entre o bárbaro e o civilizado, como sentiam os gregos, entre o bárbaro e o heleno, não era o referente à raça ou ao estatuto político. Era, sobretudo, o referente à maneira de comportar-se em relação aos fatos. O bárbaro é o que sabe sem saber o porquê do que sabe; o civilizado, o que sabe, sabendo o porquê do que sabe. Só há ciência quando se sabe os porquês próximos e remotos de uma coisa, de suas causas, de suas razões. Saber-se que naquele campo há árvores colocadas de tal modo, é apenas um saber bárbaro, mas saber porque foram elas plantadas, obedecendo a tal ordem, é um saber culto” (SANTOS, 2012, p. 20).


O autor argumenta ainda que: “O homem moderno assemelha-se a um bárbaro tecnizado, a um bárbaro que, subitamente, se viu de posse de uma técnica superior, que ele nem sempre sabe como deve empregá-la, e que destino melhor poderá dar-lhe” (SANTOS, 2012, p. 70).


Na cultura de outrora, valorizava-se a busca do belo e do elevado; na atual, porém, valoriza-se o culto ao vulgar e ao chocante. 


Podemos perceber isso claramente na decadência e na feiura das artes atuais (música, cinema, literatura, arquitetura etc.). Quando o autor fala sobre o teatro, seu diagnóstico pode ser estendido também às demais artes: “No teatro exploram-se os temas mais mórbidos. Os estudos realizados pela psicologia em profundidade forneceram um copioso material para sub-inteligências criarem um teatro em que os heróis são desajustados, neuróticos, loucos morais, angustiados de todos os graus, temperamentos em frangalhos, personalidades em decomposição, pessoas de caráter equívoco e mal formado, situações das mais insólitas, intrigas que só a mente de um louco poderia criar, pois esse teatro está mais próximo dos hospícios que do bom senso, e tudo isso é apresentado como arte, como sublime arte. Essas peças equívocas em que personagens dizem asnices em alto tom e que uma platéia ignorante considera sentenças de “alta filosofia”, em que o diálogo é um amontoado de lugares comuns, que mais deveriam fazer rir do que pensar, tudo isso recebe o louvor de uma crítica de mente estropeada, e é exaltado ao máximo” (SANTOS, 2012, p. 18).


No pensamento de outrora, valorizavam-se a filosofia e a verdade objetiva; no atual, porém, valorizam-se a opinião e o relativismo (ou nominalismo).


Ora, segundo Mário Ferreira dos Santos: “Em matéria de filosofia especulativa a única autoridade é a demonstração; e essa, segundo as rigorosas regras da lógica e da boa dialética” (SANTOS, 2012, p. 83). 


Ou ainda: “O que é exigível, no verdadeiro filosofar, é a demonstração apodítica, aquela que não admite a possibilidade de erros, pois os juízos são universalmente válidos, não que todos os aceitem, mas que tendo um nexo de necessidade entre o juízo e o predicado, não pode ser distinto de o que é, o que facilita alcançar a verdade lógica e até ontológica, segundo o caso” (SANTOS, 2012, p. 45).


Segundo Mário Ferreira dos Santos (SANTOS, 2012, p. 52), “para o filósofo, não há necessidade de fazer longas experiências para tirar uma conclusão segura”, pois “um simples fato da experiência” já lhe permite classificar corretamente os termos do juízo formulado. Por isso, “desde logo verá se é um juízo de contingência ou de necessidade” e “logo saberá classificar se o atributo é um gênero, é uma espécie, é uma diferença específica, é uma propriedade ou é um acidente”. O filósofo, ademais, “não errará, porque ele sabe como proceder com absoluta segurança”, concluindo corretamente se determinado atributo pertence ao gênero, à espécie, à propriedade ou ao acidente. Assim, “ele não precisa amontoar fichas e fichas de conhecimentos para chegar a conclusões seguras”. Tanto isso é verdade que “as grandes conclusões alcançadas pelos filósofos” foram posteriormente confirmadas pela ciência, enquanto “os que foram derruídos, uma minoria ínfima, bem examinados, revelaram estar mal construídos”.


Além disso, cabe ao educador “pugnar para que a terminologia tenha sempre um conteúdo seguro e certo”, bem como ensinar “como devem proceder para que as palavras tenham conteúdos seguros” e “não se afastem do seu verdadeiro sentido”. Tal cuidado é necessário para que “a comunicação e o entendimento entre os homens seja o mais eficiente possível”, uma vez que “toda pedagogia deve ter como supremo ideal ajudar a construir homens de mentalidade sã”, tornando-os “capazes de conviver fraternalmente com seus semelhantes” (SANTOS, 2012, p. 70).


A causa profunda dessa inversão, segundo Mário, é a crise espiritual e intelectual; ou seja, a perda da metafísica, a rejeição da verdade objetiva e o abandono da hierarquia dos valores. E a consequência é que a civilização não cai de repente — ela se dissolve. As instituições continuam existindo, mas o espírito que as sustentava desaparece. 


Assim — na parte que o filósofo descreve o que predomina no mundo atual e as características da nossa cultura —, temos o que poderíamos chamar de o alfabeto da valorização de tudo quanto em nós afirme a animalidade: a) em primeiro lugar pela exaltação da força; b) supervalorização da força; c) valorização acentuada da agilidade e da capacidade meramente física; d) valorização exagerada do corpo em detrimento da mente; e) valorização do visual sobre o auditivo; f) acentuada supervalorização romântica da intuição, da sensibilidade e da sem- razão; g) a superioridade da força sobre o Direito; h) a propaganda desenfreada e tendenciosa; i) a valorização da memória mecânica; j) valorização da horda, do tribalismo; l) a exploração sobre a sensualidade; m) a disseminação do mau-gosto; n) os credos primitivos; o) a acentuação da repetição à custa da criação; p) a Razão e o Caos; q) a valorização do inferior; r) a influência do negativo; s) exploração viciosa do esporte; t) acusações ao Cristianismo; u) os blasfemadores; v) o problema ético; x) o sectarismo e o exclusivismo; z) a valorização do criminoso.


Em síntese, a invasão vertical dos bárbaros é a corrupção interna da civilização, causada pela inversão da hierarquia dos valores, em que o inferior passa a dominar o superior, levando à decadência espiritual, cultural e intelectual.


Basta fazermos um simples exercício de raciocínio para concluir que uma sociedade que valoriza mais o entretenimento do que a verdade torna-se desordenada, pois o igualitarismo absoluto desrespeita a realidade e a distorce.


A conclusão a que chegamos é que a resposta não é política nem meramente social, mas intelectual e moral. Segundo a proposta de Mário Ferreira dos Santos, é necessário restaurar a verdade, reordenar a hierarquia dos valores e formar o intelecto, pois não é possível construir uma cultura elevada sem disciplina intelectual.


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