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| Os Cegos (1568), de Pieter Bruegel, o Velho |
Agredir verbalmente o interlocutor (ou falácia argumentum ad hominem) e sair "cantando vitória" (non causae ut causae ou falácia da falsa proclamação de vitória) é uma técnica inferior de erística tratada na lógica filosófica.
Um exemplo muito usado e ilustrativo é o dito por Scott D. Weitzenhoffer ao afirmar que “Discutir com Fulano é o mesmo que jogar xadrez com um pombo: ele defeca no tabuleiro, derruba as peças e sai voando cantando vitória”.
Ora, todos nós já passamos por isso alguma vez na vida: tentar argumentar com alguém que não escuta, muda de assunto, ignora princípios básicos da lógica e ainda acredita ter vencido. A imagem do “pombo no xadrez” descreve não necessariamente uma falta de inteligência, mas uma falta de disposição para a verdade.
Segundo Santo Tomás de Aquino, toda disputa racional exige três condições: i) objeto – ambos discutem a mesma coisa; ii) princípios aceitos – ambos admitem certos fundamentos (ex: não contradição); iii) ordem da razão – argumentos seguem lógica e finalidade. Logo, podemos definir que a argumentação racional é o ato de buscar a verdade por meio de razões ordenadas, partindo de princípios comuns. Quando essas condições falham, não há argumentação — há confusão.
A metáfora do pombo indica três vícios intelectuais. O primeiro vício é a desordem do intelecto, pois “derrubar as peças” simboliza rejeitar a estrutura do raciocínio. Em termos tomistas: falha na ratio (razão ordenadora).
O segundo vício é o desprezo pela verdade, pois “defecar no tabuleiro” indica tratar o debate com desrespeito. Aqui há um problema moral: a verdade deixa de ser o fim.
E o terceiro e último vício é a falsa vitória, pois “sair cantando vitória” mostra ignorância da própria ignorância. Isso se aproxima do que a tradição chama de soberba intelectual.
Para Aristóteles (assumido por Tomás): “Não se pode discutir com quem nega os primeiros princípios.” Por exemplo, se alguém nega que “uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo”, toda argumentação se torna impossível.
A argumentação exige verdade, lógica e princípios comuns. Sem isso não há debate, apenas ruído. O “pombo no xadrez” é igual à desordem da razão, o desprezo da verdade e a ilusão de vitória.
O tomismo distingue que o ignorante pode aprender, o confuso precisa de ordem, o sofista distorce por vaidade e o obstinado rejeita a verdade deliberadamente. O complexo do pombo enxadrista, ou a falácia da falsa proclamação de vitória, refere-se sobretudo ao sofista obstinado.
Algo da mesma espécie ocorre na obra “Os Cegos” de Pieter Bruegel (o Velho), na qual o grande artista nos mostra uma fila de cegos guiando uns aos outros até a queda. Nela não há jogo racional como no “pombo enxadrista”, não há visão da realidade — ignorância; há confiança injustificada e presunção.
Portanto, discutir com quem não quer a verdade é como jogar xadrez com um pombo, isto é, não devemos argumentar com quem não aceita a ordem da razão, pois o fim da disputa (a verdade) já foi abandonado.
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